Em Maio 2007 fui à Suíça. Na cidade de Basel o compromisso foi a inauguração da exposição de Magy Imoberdorf na Fundação Brasilea, e conversas sobre projetos conjuntos com Onorio Mansutti, diretor da Fundação.
#zurique
Minha mãe me lembrou hoje de um fato acontecido há 56 anos atrás.
Corria o ano de 1952, meus pais viajavam comigo e meus irmãos na Suíça, e na cidade de Zurique meu pai me levou a uma loja de brinquedos.
Eu com quatro anos, assim que vi um urso de brinquedo, encilhado com sela e estribos, subi nele para brincar, o vendedor sem perguntar nada me deu uma bofetada, me arrancando do lombo do urso.
Meu pai imedatamente deu um safanão de volta e o vendedor rolou escada abaixo.
Tumulto armado, chegou a polícia dizendo que iria todo mundo para a delegacia, meu pai disse que jamais entraria no camburão comigo, a polícia retrucou que ele poderia ir de taxi, mas teria de pagar o taxi.
Na delegacia meu pai explicou que no Brasil não existiria jamais a hipótese de alguém simplesmente esbofetear uma criança, ainda mais dentro de uma loja de brinquedos, e que em circunstancias idênticas, no Brasil, o vendedor já estaria morto…
Diferenças culturais esclarecidas, encerrou-se o episódio.
Desta temporada na Suíça e na Áustria lembro de algumas coisas, por exemplo da loja de brinquedo e da escada, da bofetada não.
Lembro de uma estrada no meio da floresta, viajando de carro chegamos a um pequeno bar ou restaurante e havia uma Ferrari vermelha parada na porta.
Lembro também com pungente clareza do cheiro da resina nas árvores, e do fogão Kaminofen todo em ladrilhos do hotel.
Lembro ainda de um congestionamento em uma estrada, de noite, o carro ferveu e meu pai foi pegar água numa bica.
Em Zurique, na Suíça, Magy Imoberdorf em frente às pinturas de Barnett Newman e Rothko no Kunsthaus Zürich, e eu sentado na escultura de Max Bill na Bahnhofstrasse.
Vista do trem, entre Basel e Zurique, aparece uma usina nuclear tranquilamente plantada na natureza manicurada.
Agora chove, cheio de gente na rua, entrei no hotel e vim escrever um pouco aqui no blog. Na sala ao meu lado um funcionário do hotel trabalha calmamente em seu computador e escuta no radio "Yodeln" que são aqueles cantos alpinos tipicamente suíços.
BASEL CHRONIK
Acordei às 7:00h, tomei café, perguntei para a recepcionista do hotel como ir à estação de trem – Hauptbahnhof.
Ela me disse: “Nehmem Sie Nummer acht, in die Brücke richtung.”
Tomei simplesmente o bonde número 8, desci em frente à estação, comprei o bilhete para Zurique, primeira classe, cerca de U$50, o trem saiu rigorosamente no horário, limpo, silencioso, preciso.
Chegando a Zurique encontrei a Magy Imoberdorf na estação, fomos ao museu Kunsthaus, com uma coleção fabulosa e uma linda exposição temporária do Rodin, com desenhos/aquarelas que eu nunca havia visto.
Almoçamos, passeamos pela Bahnhof Strasse, a rua mais chique de Zürich, fomos até a beira do lago (Züricher See), e às quatro em ponto entrei no prédio do UBS.
A reunião foi levemente kafkiana, primeiro porque me senti totalmente à vontade falando alemão, algo inacreditável, pois dois dias atrás eu mal conseguia dizer bom dia e pedir um café.
O Andreas que me atendeu é de uma área não exatamente aquela que eu esperava, mas mesmo assim a conversa foi boa e ele me colocou em contato com um agolano chamado Boia, da UBS Foundation, que depois me ligou e conversamos em português.
Final da tarde voltei para a estação, comprei o bilhete de volta, desta vez de segunda classe, U$30, dormi o trajeto quase inteiro, tomei Nummer acht no sentido inverso e cheguei de volta ao hotel às 19:30h.
Onorio veio a pé me buscar, fomos jantar num restaurante italiano cheio de futebolistas históricos, TV ligada no jogo Manchester x Milano, muito interessante.
Bis morgen!!!
A Suíça é inacreditável. Tudo limpo, silencioso, organizado.
Meu amigo Onorio Mansutti, presidente da Fundação Brasilea me levou logo cedo para sua casa de campo no lugarejo chamado Rantzwiller, Ost Frankreich, a meia hora de Basel, na França.
Começamos a beber às 10 da manhã, enquanto conversamos sobre os projetos conjuntos da Fundação Stickel e da Fundação Brasilea. Tomei o ultimo gole cerca das 9 da noite, junto com um bando de gente maravilhosa.
Maravilhosa PORQUE normal e NORMAL porque MARAVILHOSA, tudo em pleno DIA DO TRABALHO
Liguei para a Sandra umas dúzias de vezes, excitado porque o telefone alugado funcionou, e porque queria contar o desenvolvimento da minha aventura. Liguei também para o meu filho, que está em São Francisco Xavier, no sítio de um amigo, a tecnologia é surpreendente para mim, até hoje.
Vou tomar um banho e dormir, amanhã vou logo cedo tomar o trem para Zurique, onde terei reunião de trabalho às 4 da tarde na UBS Foundation.
Por falar em Magy Imoberdorf, ela está em Basel, na Suíça, preparando uma exposição de seus trabalhos recentes e também de alguns já expostos aqui. A abertura será dia 3 de Maio na Fundação Brasilea.
2 comentários
As lembranças povoam a nossa memória, o bom é q vc filtrou as boas lembranças, o cheiro bom,os lugares agradáveis...E seu pai foi um super pai, eu tb derrubo da na bofetada, jogo escada a baixo quem o…
é legal quando desentarramos essas histórias...tem sempre um detalhezinho guardado lá no fundo, né?