Manoel de Barros (1916-2014) poeta brasileiro. "Só quem está em estado de palavra pode enxergar as coisas sem feitio." "Desfazer o normal há de ser uma norma." "Pode um homem enriquecer a natureza com sua incompletude?"" PS: Nesta coleção de citações sobre a arte que ando fazendo geralmente uma boa…
#manoel de barros
O Fotógrafo
Difícil fotografar o silêncio.
Entretanto tentei. Eu conto:
Madrugada a minha aldeia estava morta.
Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre
as casas.
Eu estava saindo de uma festa.
Eram quase quatro da manhã.
Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.
Preparei minha máquina.
O silêncio era um carregador?
Estava carregando o bêbado.
Fotografei esse carregador.
Tive outras visões naquela madrugada.
Preparei minha máquina de novo.
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na
pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Por fim eu enxerguei a Nuvem de calça.
Representou para mim que ela andava na aldeia de
braços dados com Maiakovski – seu criador.
Fotografei a Nuvem de calça e o poeta.
Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa
mais justa para cobrir sua noiva.
A foto saiu legal.
Talvez neste momento seja bom saber (ou lembrar) com Manoel de Barros, com o que se faz POESIA.
Ledusha estréia no blog do Noblat. Só pra lembrar: poeta, s.m e fem. Indivíduo que enxerga semente germinar e engole céu Espécie de vazadouro para contradições Sabiá com trevas Sujeito inviável: aberto aos desentendimentos como um rosto manoel de barros…
1 comentário
Ledusha, magna poeta do mínimo viver paulistano: mim sei, ni sei do rapa do japa que dá porrada no bairro da liberdade! sei
De Manoel de Barros, no livro O Encantador de Palavras, 1996.
1. MATÉRIA DE POESIA
Todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para poesla
O homem que possui um pente
e uma árvore
serve para poesla
Terreno de 10×20, sujo de mato – os que
nele gorjeiam: detritos semoventes, latas
servem para poesla
Urn chevrolé gosmento
Coleção de besouros abstêmios
O bule de Braque sem boca
são bons para poesia
As coisas que não levam a nada
tem grande importância
Cada coisa ordinária é um elemento de estima
Cada coisa sem préstimo
tem seu lugar
na poesia ou na geral
O que se encontra em ninho de joão-ferreira:
caco de vidro, garampos,
retratos de formatura,
servem demais para poesia
As coisas que não pretendem, como
por exemplo: pedras que cheiram
água, homens
que atravessam períodos de árvore,
se prestam para poesia
Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma
e que você não pode vender no mercado
como, por exemplo, o coração verde
dos pássaros,
serve para poesia
As coisas que os líquenes comem
– sapatos, adjetivos-
têm muita importância para os pulmões
da poesia
Tudo aquilo que a nossa
civilização rejeita, pisa e mija em cima,
serve para poesia
Os loucos de água e estandarte
servem demais
O traste é ótimo
O pobre-diabo é colosso
Tudo que explique o alicate cremoso
e o lodo das estrelas
serve demais da conta
Pessoas desimportantes
dão pra poesia
qualquer pessoa ou escada
Tudo que explique
a lagartixa de esteira
E a laminação de sabiás
é muito importante para a poesia
O que é bom para o lixo é bom para a poesia
Importante sobremaneira é a palavra repositório;
a palavra repositório eu conheço bem:
tem muitas repercussões
como um algibe entupido de silêncio
sabe a destroços
As coisas jogadas fora
têm grande importância
-como um homem jogado fora
Aliás é também objeto de poesia
saber qual o período médio
que um homem jogado fora
pode permanecer na terra sem nascerem
em sua boca as raízes da escória
As coisas sem importância são bens de poesia
Pois é assim que um chevrolé gosmento chega
ao poema, e as andorinhas de junho
5 comentários
Gosto do Manoel de Barros também.Falando sobre o alpinista, cada jornal escreve uma coisa, a Folha que pegou a notícia num jornal francês diz que foi uma machadinha. Faz mais sentido. Quanto ao osso,…
Manoel de Barros é a uma daquelas reencarnações maravilhosas que vez ou outra calham de nascer no Brasil!Beijo.
Ele é fantástico. O Fazedor do Amanhecer me encanta a cada releitura...
[...] neste momento seja bom saber com o que se faz POESIA. é isso, por fernando stickel [ 17:33 ] Link para este post Comente [...]
conforme o poeta fernando jose karl, o poeta acima e a reencarnaçao viva do mesmo OVOALGEMACLARAPRISÃO GRATO carlos augusto coelho de oliveira
1 comentário
nossa adorei "aqui" mestre. nossa li esse poema em uma edição da caros amigos que desapareceu da minha casa e fui encontralo logo "aqui" vou adicionar no favoritos abraço