Na sequência pedi para o meu amigo Joaquim Cunha Bueno Marques fotografar o prédio, preparei um abaixo assinado com as fotos e fui à luta. Reuni um total de x assinaturas, a seguir: Assinam a lista em defesa do painel do Edifício Pinheiros: Aguinaldo Galiza Jr.- Publicitário Armando Garcia Jr.
#josé carlos boi cezar ferreira
True Colors: An Interview with Fernando Stickel on José Carlos “Boi” Cezar Ferreira
Entrevista por escrito que dei a pedido da minha amiga Cynthia Garcia, para Newcity Brazil.
A seguir, a entrevista por escrito em português:
1.Fernando, o que lhe atrai na pintura do José Carlos (Boi)? Vc possui telas dele? Qtas? Compradas lá atrás?
Cynthia, em primeiro lugar quero reforçar algo que é importante para a preservação da memória do Boi. Toda e qualquer referência ao seu nome deverá ser grafada sempre José Carlos BOI Cezar Ferreira, é a melhor maneira de indexá-lo na internet. A Enciclopédia Itaú Cultural usa este verbete, por minha sugestão.
O Boi foi sempre um autêntico, o artista dos artistas, um verdadeiro mestre. Relacionamentos pessoais, questões de saúde, negócios mundanos, família, nada era capaz de obliterar sua essência de artista. Entre seus amigos corria a brincadeira de que ele nunca aprendeu a desenhar, o que nos anos 70, em tempos de Escola Brasil: poderia até se configurar como uma heresia…, mas ele não dava a menor bola a estes comentários, simplesmente seguia em frente fazendo sua arte, pintando telas poderosas e resolvendo da maneira dele todas as questões do desenho. E é justamente a maneira dele resolver e dominar estas questões que torna seu trabalho único, com o uso de cores fortes e padrões geométricos em inspirações corriqueiras, familiares, domésticas, urbanas, da natureza, das florestas e cachoeiras, vez por outra geométricas.
Tenho hoje na minha coleção, quatro telas e dois desenhos, todos comprados muitos anos atrás. Alguns estão comigo há meio século…
2.Quando você o conheceu? Como foi sua amizade com ele? Vc o conheceu do meio da arte paulistana ou de alguma escola que vcs teriam cursado? Vcs expuseram juntos? Como era seu meio social? Vinha de família burguesa ou de um meio mais simples?
Conheci o Boi em plena efervescência dos anos 70 e o surgimento da Escola Brasil: Imediatamente ficamos amigos, participando da vida familiar um do outro, casamento, nascimento de filhos, namoros, separações etc… Tudo isso junto e misturado com Dudi Maia Rosa, Fajardo, Frederico Nasser, José Resende, Cassio Michalany, Baravelli, Augusto Livio Malzoni e muitos outros.
O cenário paulistano da arte ocupava o pano de fundo permanente na nossa amizade, era uma época em que todo mundo ia aos vernissages, as pessoas se encontravam nas exposições e nas festas, surgiu também em 1979 a Cooperativa dos Artistas Plásticos de São Paulo, e com ela mais exposições e encontros no ateliê de amigos. Nunca expusemos juntos, talvez tenhamos participado de algum salão de arte juntos, não me lembro.
Conheci o pai dele Carlito, supersimpático, morava em Higienópolis, família classe média, acompanhei as incursões do Boi no mercado imobiliário e a criação de seu restaurante Truta Rosa. Visitei-o com meus filhos Fernanda e Antonio em Mauá, onde ele morou.
3.Na época, diziam que sofria de problemas psicológicos, que caia em períodos de depressão. O que sabe? Como era isso?
Consta que tudo começou quando o Boi foi morar em Los Angeles nos anos 60, lá ele teve uma bad trip de ácido lisérgico e as sequelas desta primeira crise voltavam a se manifestar de tempos em tempos, ao longo dos anos, com crises psicológicas, mas quem pode falar melhor sobre isso é a Leila Ferraz, com quem o Boi foi casado. Ao final da vida estas crises se tornaram mais frequentes e agudas, ele acabou internado, os amigos se reuniram no grupo de WhatsApp “Amigos do Boi” e organizaram um leilão de obras de arte para criar um fundo para ajudar a custear as despesas de saúde dele. O leilão ocorreu em junho 2017 no Auroras, em dezembro 2018 o Boi faleceu aos 74 anos de idade.
4.Pq acha que ele nunca viu uma verdadeira apreciação de sua arte? Ele ficava triste por isso? Seria pq era mto tímido no approach aos galeristas? Ou sua pintura simplesmente já não estava no gosto corrente?
O Boi foi sempre apreciado, desde o primeiro dia, pelos seus pares, seus amigos artistas e meia dúzia de colecionadores próximos, ele teve exposições importantes, mas acho que ele não tinha o necessário traquejo, todo mundo sabe que o relacionamento com galerias, críticos, curadores é dificílimo e ele não era uma figura disposta a fazer esse jogo, acho que também não sabia.
Reputo seu trabalho como importantíssimo e pouco divulgado, com certeza merece uma retrospectiva e um livro. A Fundação Stickel está com projeto de lei de incentivo para tanto.
5.O que levou sua fundação a publicar em 2010 o ótimo livro sobre sua pintura? Uma curiosidade, de onde vem o apelido Boi?
Foi justamente a ausência de um documento sobre sua tão importante obra, que nos motivou a fazer o livro. Na sequência da exposição dele que fizemos em 2006, surgiu o livro José Carlos BOI Cezar Ferreira, um Boi Abstrato, com texto de seu amigo Gabi Borba, editado pela editora J.J.Carol.
Não sei de onde vem o apelido Boi. Será que alguém sabe?
6.Como vê a exposição na MAPA? Dê uma panorâmica.
O Marcelo Palotta tem a incrível habilidade de condensar em torno de si arte da melhor qualidade, de artistas que não desfrutam dos holofotes da crítica e/ou da mídia, como é o caso do Boi. Circunstâncias aleatórias colocaram-no em contato com vários colecionadores, inclusive eu, surgiu daí a exposição, com texto crítico do Agnaldo Farias, amigo comum. Eu fiz um esforço de reunir trabalhos espalhados com meus filhos, ex-mulheres, e conseguimos reunir um belo conjunto de trabalhos. É na verdade, uma minirretrospectiva.
7.Algo mais
O Boi tem uma habilidade que não fica evidente em uma exposição de pinturas, que é sua enorme criatividade com as palavras, o Boi era também um poeta, um linguista e etimólogo, apreciava anagramas e os criava. Sua inteligência e humor sempre me fascinaram.
Seus cadernos de anotações são deslumbrantes, testemunho de uma mente privilegiada, misturando palavras e recortes visuais, desenhos e pensamentos brilhantes. Um viés do destino determinou o fim precoce de tanta criatividade e brilho, Boi nos deixou prematuramente… Tenho muita saudade dele.
Neste link você poderá encontrar mais sobre José Carlos BOI Cezar Ferreira.
José Carlos BOI Cezar Ferreira, ou simplesmente BOI para seus amigos, era um pintor fabuloso, companheiro inesquecível, “um artista dos artistas” como diz Agnaldo Farias em seu texto de apresentação. Falecido em 2018, Boi recebe agora uma necessária retrospectiva na Galeria MaPa, imperdível!
Em 1977 Norberto (Lelé) Chamma e eu resolvemos criar um escritório de comunicação visual, ao qual eu dei o nome de und (e em alemão). Chamamos meu primo Joaquim da Cunha Bueno Marques para fazer uma foto de divulgação, que utilizamos em um cartão postal. A foto foi tirada no apartamento em que eu morava na R.
No meu estúdio da R. Ribeirão Claro na Vila Olímpia nos anos 80, com a tela de José Carlos BOI Cezar Ferreira. Obrigado pela foto Helena Brício! Cerca de dez anos antes, no apartamento da R. Tucumã, com a mesma tela do BOI. Eu e o Boi, no apartamento da R. Tucumã.
Cerca de 1970, no terreno dos fundos da casa dos meus pais na R. dos Franceses havia uma quadra cimentada, e lá inventamos um jogo de futebol com o grupo de amigos que frequentava a Escola Brasil: O engraçado é que, se bem me lembro, nenhum dos artistas plásticos participantes da brincadeira tinha…
5 comentários
Incrível isso! Mas se tem fotos (de quem?) deve ser verdade... abração B.
Fe , nao fui eu que tirei as fotos .Eu nunca fui um bom jogador de bola, eu ia para um lado e a bola para o outro . Porem foto eu conseguia por no foco. Eu ate achei que eu era o Bara . abç Edo
Engraçado isto, paulista joga futebol sem bola... :-))) :-))))) :-)))))))
hehehe! lembro muito bem! ;)***
[...] evento da foto está descrito aqui, o muro de arrimo se vê coberto de [...]
Em 1971 casei com Maria Alice Kalil e convidei o Frederico Nasser para ser meu padrinho. Durante alguns anos, Frederico frequentou assiduamente nosso apartamento na Rua Hans Nobiling. Éramos amigos íntimos, ele aparecia com presentes, uma bebida, um desenho do Evandro Carlos Jardim.
15 comentários
[…] confirmar. No ano passado, em pleno recolhimento da pandemia, me dediquei a pesquisar e contar esta história, talvez a mais ambiciosa e completa que fiz até […]
Uma escrita deliciosa que nos faz passear por uma época e amigos maravilhosos. Obrigado querido
Obrigado Carlos!
Que delícia ler a Escola Brasil por um de seus participantes! Completamente diferente de ler uma fria descrição em livro... por favor escreva mais, Fernando, certamente tem mais histórias em seu baú!
Obrigado Francis! Estou escrevendo!
Faleceu o meu amigo Frederico Jayme Nasser aos 75 anos de idade. Ele teve uma importância gigantesca na minha vida e na minha opção pelas artes plásticas. Foi uma presença instigante, fascinante, generosa, surpreendente e carismática.
6 comentários
Fernando, só hoje soube que Frederico havia falecido. Soube porque procurava seu endereço para poder entregar a ele os belíssimos boletins que ele enviava para mimq uando pasei um anos nos EUA em 1962…
Oi Mary Jane, fiquei curiosíssimo para ver estes boletins!
o Nasser sentava a meu lado no banco escolar-colg sto americo -r imac conc 71 - sta cecilia- cca 1959 - risonho esperto sugeriu eu dizer Velhos Marinheiros de J Amado -nunca houvi falar e pouco lia em…
Você foi privilegiado Victor, conheceu-o muitos anos antes de mim!
Fre, só hoje fiquei sabendo de sua vó morte. Portanto, permaneceste vivo até hoje e assim continuarás em vi minha memória e meu afeto. Saudades.. vê se aparece. Bjs. Maia
Faleceu no último dia 15 Dezembro aos 74 anos de idade o meu amigo José Carlos BOI Cezar Ferreira. Uma tristeza. Em Março 2017 houve uma exposição das pinturas do Boi no estúdio do Artur Lescher, ele estava bem, lúcido e feliz. Logo depois foi internado e de lá para cá sua saúde decaiu rapidamente.
3 comentários
Fotografia do Boi de Leila Ferraz.
Oi Leila! Esta foto do Boi no estúdio do Artur é de minha autoria. Fiz várias, achei ele ótimo com a camisa amarela.
Fernando Stickel! Estivemos os dois, você e eu, lá no estúdio do Arthur, nessa exposição. Nós dois fotografamos o Boi com a camisa Amarela. Tenho uma foto igual a essa em meus arquivos, também. O que…
Foto Caio Reisewitz Os artistas que doaram suas obras e que estavam presentes no leilão em benefício de José Carlos Boi Cezar Ferreira no auroras. Agachado de camisa azul claro Ricardo Kugelmas, que gentilmente cedeu o auroras para o leilão.
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16 comentários
Bacana, Fernando.Passo aqui para deixar um abraço de Fim de ano para voces aí, de nós daqui. Bob e Renata
morei minha infancia toda neste predio, só hoje (ahril de 2014) é que soube dessa tentativa de destruir o painel. que bom que fracassou! parabéns pela iniciativa!
pois é Fernando ! aqui os dirigentes tem a mania de de$cartar o antigo, a historia...esse mesmo prédio, que eu também conheço, foi há pouco tempo atras, alvo da investida de um incorporador, que adqui…
Vou morar lá! Obrigada por guardar o painel de mosaico, que para mim é o maior charme. Taís
Taís, my pleasure!!