Lá nos idos de 1989 a joalheira Miriam Mamber teve a ideia de convidar um grupo de arquitetos para fazer e expor joias, eu fui um dos convidados.

Adorei o convite e me lancei com entusiasmo à empreitada, utilizando seixos, conchas, cacos de cerâmica e vidro que encontrei e colecionei durante anos nas minhas andanças, principalmente nas praias do Curral e Velloso na Ilhabela. Por indicação contratei um ourives que desenvolveu os engastes de prata que receberam os materiais coletados.

A exposição aconteceu na Galeria Artwear & Design na galeria da Al. Gabriel Monteiro da Silva 1046 em 17 outubro 1989 e teve o nome de ARQUITETOS JOALHEIROS. Os artistas convidados foram:

Lezio Cardoso, Paulo Hatanaka, Guto Lacaz, Pepe Asbun, Paulo Mendes da Rocha, Luis Paulo Baravelli, Miriam Mirna Korolkovas, Luciano Deviá, Takashi Fukushima, Eduardo Longo, Sueli Suchodolski, Claudio Libeskind, Joaquim Guedes e eu.

Polaroid antiga com a preparação das peças.

Nunca desenhei joias, mas a minha curiosidade e interesse levam-me a colecionar coisas,

pelo inusitado da beleza ou emoção que me despertam. Entre estas coisas encontram-se

centenas de cacos de cerâmica, vidro, pedras e tijolos polidos pelas areias da praia do

Velloso em Ilhabela.

Ao ser convidado para criar joias, lembrei imediatamente da rara beleza destes elementos

trabalhados pela natureza, que coleciono há anos, e decidi estrear como joalheiro

utilizando-os.

Tratei de selecioná-los pelo formato, cor, textura e relacioná-los, uni-los e mesmo realçá-los

com doses homeopáticas de metais nobres, conferindo acabamento, solidez, toque e

permanência.

O processo de criação de uma joia, objeto utilitário ou projeto de arquitetura é o mesmo.

O que muda é a escala, a complexidade de execução e o número de profissionais envolvidos.

Posso sozinho completar uma aguarela em poucas horas. Com o auxílio de um ourives uma

joia pode ser produzida em alguns dias ou semanas. Já um projeto de arquitetura envolve

dezenas de profissionais e não raro anos de trabalho.

Acredito na fecundidade excitante e saudável das atividades interdisciplinares dos

arquitetos joalheiros, músicos engenheiros, cenógrafos cozinheiros, artistas figurinistas

ou …

A compra de um objeto de arte é para mim um enorme prazer. Dividir esta sensação ao

presentear uma mulher com uma joia eleva à enésima potência as emoções envolvidas.

Joias simbolizam algo quando usadas com sabedoria, podendo significar bom gosto,

beleza, sedução, magia, equilíbrio, lirismo, amor.

Fernando Stickel – Arquiteto Joalheiro – agosto 1989